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Guerra ao homem

Odeio quando ideias preconceituosas sustentam uma guerra entre os sexos. É comum ver opiniões inconformadas contra a figura do homem. O homem é imaturo, o homem não pensa, o homem é machista. Não estou mentindo quando digo que já li e ouvi isso várias vezes. Feminismo não é guerra ao homem. Não é sustentar o preconceito.  
O problema é quando as pessoas se confundem e levantam essa bandeira com outras ideias. 
Não é possível que o homem seja culpado até pela fatia de pão que cai com a manteiga virada pra baixo ou pelas cheias dos rios. Não, eu não posso trocar o pneu, eu não posso trocar lâmpadas e não vou levar as compras. Assumir que essas são tarefas de homem é o mesmo que dizer que a mulher é quem deve cozinhar, por exemplo. Isso também é machismo.Sim, eu acredito na igualdade entre os sexos. E espero ouvir mais, vindo tanto de homens quanto mulheres, coisas do tipo: Sim, eu troco o pneu. Eu troco as lâmpadas. Eu levo as compras. Eu cozinho. Eu limpo a casa. Eu lavo a roupa.
Deixo aberta a discussão. 

O dia em que a UFAM realmente parou

Quando a moção pedindo o cancelamento do calendário acadêmico foi aprovada por maioria de votos, eu estava bem lá atrás. Sentada no chão e um tanto cansada. A reunião tinha sido longa, durou das nove e meia da manhã até mais ou menos duas da tarde. Depois de cinquenta manifestações de conselheiros do colegiado e discentes e de tantas anotações e discursos, era interessante observar a situação com um olhar “de baixo”. As pessoas que me viam assim não achavam-me digna de atenção, não se preocupavam com o que falavam bem a minha frente. Entre manifestações de alegria e ameaças de liminares, eu conseguia enxergar o que já sabia, porém nunca tão ao vivo e em cores: a existência de “universidades” dentro de uma instituição só. Certos discursos deixaram isso bem explícito.

Nota: Essa constatação é tão óbvia que provavelmente o leitor deve estar com a mão na cara, ou um sorriso de deboche nos lábios. Mas é o que precisa ser dito, caro veterano. Então perdoe esta pobre e tão ignorante, de acordo com a frase "ela é caloura e não sabe o que faz".

No Consuni (Conselho Superior Universitário), foi possível avaliar todas essas diferenças. As diferanças entre cursos, unidades e entre os professores. Diferentes pontos de vista, impasses e necessidades foram apresentadas. Cinquenta pessoas tiveram a oportunidade de ter o microfone e falar. Em um primeiro momento, as reivindicações foram apresentadas, os motivos da greve, etc; para logo depois dar lugar a  "embate ideológico" (esse talvez não seja o melhor termo). Alguns argumentos geraram certa polêmica.

Ficou claro que o pensamento "greve não leva a lugar nenhum" ainda é considerado válido. Segundo a conselheira  Marina das Graças de Paula Araújo (Faculdade de Direito) "historicamente as greves conseguiram de 100%, apenas 10%, e no final os professores são punidos e os alunos também [...] no final fazem o período atropelado, os alunos fingindo que aprendem e os professores fingindo que ensinam", a própria também disse que os profissionais na área de Direito "são as cabeças pensantes da sociedade", tal ideia não muito bem aceita pelos presentes... "no campo jurídico!" completou ela em seguida depois de uma onda de vaias.
Também foi visto certo pensamento moralista acerca de manifestações. Nas palavras da conselheira Sônia Maria da Silva Carvalho (Instituto de Ciências Biológicas) , a manifestação da semana passada na qual estudantes mostraram seu corpo seminu foi "de mau gosto. Tudo tem seu contexto, seu limite, sua hora [...] aquela manifestação, de certa forma, acaba desmoralizando a universidade". A conselheira Arminda Rachel Botelho Mourão (FACED) repondeu muito bem as duas questões: "foram graças a essas greves que estamos aqui [...] antes o colegiado era por indicação" e "peito de fora não me ofende. O que me ofende é a corrupção".

Esses só foram alguns dos argumentos apresentados. Porém foram os que me fizeram pensar exatamente nessa existência de "classes" dentro da UFAM e de certos preconceitos. É como se certos alunos fossem melhores que outros, por fazer curso A ou B. Como se o direito de protestar tivesse que ser só aquele jeito mansinho, sem chamar a atenção. Como se a UFAM não fosse uma só.

Então, apesar de saber que os estudantes terão prejuízos, a decisão de cancelar o calendário acadêmico (para mim) foi justa. Justa porque não tratou os interesses de uns mais importantes que os de outros. Justa porque deu força ao movimento dos professores. Justa, principalmente, porque certos estudantes não foram tratados com maior importância que outros.

Enfim, a greve é fato. Não precisava do Consuni para se tranformar em realidade. Mas para aqueles que usavam isso como desculpa para "furar" a greve... minhas condolências. Da próxima vez, não se esconda atrás de ilusões. Medida judicial nenhuma vai mudar isso.

Gigantes pela própria natureza ?





Enquanto assistia à apresentação cultural do evento de lançamento do Intercom 2013, ouvi a seguinte frase de um grupo de estudantes: "É por isso que pensam que em Manaus só tem índio e mato, insistem nesse boi bumbá''. 
Me impressiona o quão ofendidas e injustiçadas as pessoas se sentem quando são comparadas com índios e relacionadas com o ''mato''.


As pessoas que defendem esse tipo de opinião são as mesmas que quando vão ao sudeste e alguém pergunta se no Amazonas usam canoa pra ir à escola ficam com tanta raiva que são capazes de tirarem a zarabatana e a flecha de dentro da bolsa para acertar o sujeito. Elaboram mil argumentos a fim de vender a ideia de que o Amazonas tem a Zona Franca e de que TV, computador e celular que eles usam somos nós que fabricamos. 
Querem o que com isso? Prêmios para nossa mão-de-obra barata?
Esquecem (ou fingem que esquecem) que no Amazonas as pessoas usam SIM canoa para ir às escolas, ignoram o ritmo de vida que os ribeirinhos levam tentando vender uma ideia de um Amazonas totalmente descolado, atual e nos padrões bizarros do capitalismo (...)


Dizemos da boca para fora que a maior riqueza é a floresta, mas a ideia de perder a Zona Franca apavora muito mais que notícia de desmatamento. Ouvimos as bandas daqui, mas só se elas tocarem covers de bandas de fora. Adoramos o açaí de Codajás, mas o da Waku Sese é bem melhor com todo aquele leite condensado e amendoim. A virada cultural é ótima dando espaço para os artistas Manauaras, mas vamos lotar só o show da Pitty (...) Tudo isso me remete a uma frase de uma música do Cazuza cujo nome não lembro e estou com preguiça de procurar no google. A frase é "são cabocos querendo ser ingleses". Caboco, esse termo ofende. Chame de otário, mas não chame de caboco. Ui, eles são civilizados.


Enquanto pensava nisso tudo, ainda assistindo à apresentação de boi bumbá no evento, uma amiga paraense me joga essa: 
-Se isso fosse em Belém já tavam todos em pé dançando o carimbó.
De todas as coisas que me passaram na cabeça, olhando para situação toda e conversando comigo mesma o que se pode concluir é que falta identidade cultural. 
Em Recife, independente da idade, a população apoia o maracatu ou o frevo. Em Fortaleza, Patativa pode não ser o artista mais ouvido no ipod mas todo mundo conhece alguma coisa e não tem vergonha de admitir. Falar do Rio é até covardia, com a bossa nova que nunca fica velha. Não é preciso ir muito longe, em Belém mesmo o carimbó não é ridicularizado como o boi bumbá é, por algumas pessoas daqui e até mesmo o tecno brega de lá ganha proporções maiores. Tá aí a banda uó e a Gabi Amarantos para provar.
No entanto, Manaus não, o manauara é muito cool para respeitar a cultura daqui. Vejam bem a palavra que eu usei: RESPEITAR. Ninguém precisa fazer fã-clube para os artistas locais, você precisa respeitar primeiro, para abrir a mente e a partir daí incentivar (ou não).
Acontece que muita gente ainda tem a mente tão fechada que acha que a cultura musical local se resume a boi bumbá. Mas papai do céu perdoa. 


Existe um artista que sintetiza tudo isso que eu falo numa música chamada Divina Comédia. O nome dele é Nicolas Júnior. Dá até orgulho de ouvir. Pesquisando um pouco mais sobre ele, eu descobri que ele não é amazonense. Quer dizer, teve de vir alguém de fora para abrir nossos olhos e nos mostrar o quão ímpar são as nossas riquezas e nos chamar para esquecer essa frescura de querer outra cultura. Não é difícil, muito menos impossível.. se você é amazonense ou nem é mas adotou Manaus como seu lar não custa nada fazer esse pequeno favor para o estado que lhe acolhe. Não tenha vergonha dele, assuma-o, não ridicularize seu povo, seus costumes, suas gírias, suas comidas, sua música e o fato de  ser gigante pela própria natureza. 


Manaus Tal Qual

Quem mora em Manaus sabe muito bem do que eu estou falando quando o assunto é a divulgação do estado, seja ela nacional ou internacional, quero dizer, o resto do país (e porque não o mundo todo ?!) nos tem como semianalfabetos naturalistas a partir da imagem e informação que recebem por boa parte das mídias. É publicidade de hotel de selva pra cá, propaganda de guaraná pra lá, documentário indígena acolá, sem falar na infinita divulgação de riqueza da fauna, flora e frutos, também temos o teatro Amazonas... ah falou no estado é lembrar o boto, há também o encontro das águas, e não podemos esquecer o festival de Parintins, por favor o boi é cartão postal. Toda essa propagação cultural é ótima para fins lucrativos e turismo no estado, a final se Deus nos deu o maior rio do mundo então vamos vender nosso peixe.

Pois bem, o que vem acontecendo há muito tempo é que uma considerável parte dos meios de comunicação tem esquecido de exercer o seu papel “jornalístico” de mostrar sempre os dois lados da moeda... então alguém me diz: -“Não João, o Polo Industrial de Manaus é conhecido até internacionalmente” ... e eu rebato: - “Você se contenta em ser apenas um Polo Industrial ? Somente o polo fará um estado melhor para todos ?”. Há um Amazonas lindo de se orgulhar por suas belezas naturais, mas também há um Amazonas que sofre com problemas de saúde pública, de corrupção política, de transporte coletivo com péssima qualidade, de preços absurdos, de um trânsito caótico causado por falta de infraestrutura, de desastres naturais como nossas chuvas e rios cheios que causam enchentes violentas destruindo casas, carros, famílias... e existe também o Amazonas inteligente, de riqueza literária, culto, com a primeira universidade federal do país, sendo Manaus uma das cidades que mais cresce em empreendedorismo, ALÔ BRASIL, HÁ CIVILIZAÇÃO AQUI !

Uma vez eu ouvi de um empresário mineiro a seguinte frase: “Manaus é a cidade de fazer dinheiro” ... e é, pra quem vem de fora, pra quem é inteligente,  pra quem sabe usufruir do potencial que temos mas não vemos. Acorda Amazonas, acorda população, vamos mudar essa história, vamos construir a imagem do maior estado brasileiro como um estado de valores naturais, com um povo civilizado e índios inteligentes com capacidade pra ter e ser o que quiserem, e engavetar de vez essa ideia ignorante e generalizada de homens nus com cocas junto à onças, cobras e jacarés no meio da rua.